segunda-feira, 9 de julho de 2012

Cedo


A lua estava ainda alta e crescente no céu, brilhando de forma intensa. Por entre as gretas da cortina entrava uma luz azulada que riscava linhas na parede oposta à cama. Esse era exatamente o mesmo cenário que eu presenciara pela última vez, antes de adormecer, há não muito tempo.

Agora havia ali fora uma manhã silenciosa. Na verdade, uma ainda não-manhã. Ainda não havia movimento, nem barulho naquele cenário de despertar apenas próximo. A sensação de quando descia as escadas ainda era de uma noite, mas com algo que a diferenciava. Não era uma atmosfera de horas após o crepúsculo, quando essa ainda convidava para uma extensa estrada cheia de escuridão. Era algo passageiro. Um enegrecer que se dissiparia dentro de alguns minutos – quem sabe pouco mais de uma hora – dando lugar à luz tênue e suave de um novo dia. Era um momento sem lugar no tempo.

Era um não momento, que se construía e destruía enquanto o som solitário dos meus passos cruzava o asfalto, livre. Esses instantes não fariam parte da minha vida, estavam ali apenas como um registro. Cabiam aos sonhos, que deram licença a um tipo estranho de torpor, não muito diferente. Estava acordado naquele não-lugar, são e combatido por ventos frios quase cortantes. O balançar da copa das árvores, o silêncio quase absoluto. A sensação de que à medida que os segundos pulavam sobre si eu testemunhava um nascimento: o momento em que nada era –  tudo seria.

Conflitos e anseios pareciam simplesmente insignificantes diante de toda aquela beleza. Sombras e luz, sons e sono. Isso tudo se misturava enquanto nada acontecia. Em breve a luz quase dourada do nascer do dia iria se estender como um lençol sobre os prédios, campos, vidas e mentes ainda inconscientes. Mas eu estava ali, na iminência da existência.

Tudo eram idéias e seu gosto era doce.

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